
Todo dia ele faz tudo exatamente igual. Acorda bem antes de o primeiro morador trabalhador se levantar, veste sua roupa, dobra seus poucos cobertores que mal agüentam o frio das madrugadas, o colchão ralo, põe tudo nas costas e sai pra mais um dia de trabalho - mais um exaustivo dia sem direito sequer a um café da manhã.
E lá embaixo, em algum lugar que até hoje não descobri onde fica, tira um carrinho e sai à cata de papéis, papelão, "qualquer coisa aproveitável pra ganhar uns trocados". Dá "bom dia" pras mocinhas que passam a caminho da escola, dizendo-lhes "boa aula, vai com Deus". Sem nem saber, transforma o dia de uma dessas mocinhas que imagina não ser notada nem por sua sombra, e não recebe nada em troca...
Não sei o que faz na hora do almoço. Talvez continue o serviço de revirar latas e mais latas de lixo, ou talvez vá pedir um prato de comida a algum dono de restaurante que não seja "mão-de-vaca".
E quando dão sete horas da noite, volta ao lugar de origem, estica seu colchão, procura a melhor forma de se aquecer em mais uma madrugada gélida e dorme...
Dorme na calçada fria e úmida para acordar mais uma vez solitário...
Ele vive. Sem ter um amigo, um parente a quem contar os fatos que lhe aconteceram durante o dia, sem ter com quem dividir um riso, um segredo, as histórias de uma vida...
[Reclamar é fácil, difícil é enxergar a verdadeira microdimensão dos nossos problemas, perto dos alheios.] "This is your life
Are you who you want to be?
This is your life
Is it everything you've dreamed it would be
When the world was younger
and you had everything to lose?
Don't close your eyes..."
(Switchfoot)
Milton Nascimento e Maria Rita - Tristesse.
.:: Por Louise Gracielle, às 5:43 PM.