A avó na cadeira de balanço, na sala, frente à televisão desligada, fazia seu crochê tão imersa em pensamentos que estremeceu quando ouviu a porta da cozinha bater fechando.
Ficou imóvel, percebeu que eram eles. Estremeceu novamente.
Lembrou do tempo em que ainda era criança, de como brigara com seu irmão, porque tentara ouvir o que ele e seus amigos diziam escondidos na casa da árvore. De quando seu irmão voltava da guerra em cartas tristes e da última que recebeu, acompanhada de uma bandeira. Lembrou de sua mãe chamando para o almoço, de suas pernas finas correndo pela rua de pedras, do dia em que caiu e machucou o joelho. De seu pai que chegava em casa na hora da janta, às vezes a rodava e jogava para o alto, às vezes cansado demais para lhe dar atenção. Lembrou de suas colegas de infância, de como suas bonecas se transformaram em discos de vinil, e de como sua ciranda virou um baile de formatura. Lembrou que fora à praia, que brincara de jogar água para o alto, que derrubara o castelo de areia de seu irmão. Lembrou de uma tarde de domingo quente em que toda a família tomava sorvete na calçada de uma rua movimentada. Lembrou de seu primeiro beijo, de seu primeiro namorado, e do dia em que conhecera o amor de sua vida. Lembrou de seu casamento, do rosto prematuro de seu primeiro filho, de como ainda o ama. Lembrou do primeiro dia de aula de sua filha, e de como ela chorou, dos cabelos longos de seu filho caçula, tão rebelde. Lembrou de como no final todos eles deram jeito na vida. Lembrou de como é ter alguém a te chamar de vovó, de como é a expressão das crianças ao serem presenteadas. Lembrou como sua vida passara num piscar de olhos. Lembrou de como nada naquela vida superaria a felicidade da festa surpresa que ganhou aos 10 anos, nada poderia apagar o sol forte que fazia naquela tarde e nada iria descolorir os papéis que envolviam os presentes. Também pensou que nada iria apagar de sua memória o beijo que ganhou de seu pai, antes dele desaparecer completamente de sua vida, e de como se arrependia por estar fingindo dormir naquela noite. Lembrou de inúmeras pessoas que participaram de sua vida e que agora só poderiam ser lembradas.
“Dudu, tem biscoito na mesa”.
Eram 9:25, o cheiro de biscoito recém-assado estava forte na cozinha mal-iluminada da casa em que a trupe barulhenta adentrava. A cadeira de balanço fazia barulho.
( Por Eduardo, Dudu, Trinidol, Duf e demais variações. )
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Seria muito egoísmo de minha parte se o [Broken Ideas] girasse em torno de meu umbigo e somente em torno dele. Por isso, vou postar trechos prediletos de blogs de amigos, textos alheios (como esse do Eduardo) e trechos musicais.
"Se o sinhô num tá lembrado
Dá licença de contá..."
(Adoniran Barbosa)
Enya - On My Way Home.
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